Mal traçadas linhas

“Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.”
(Álvaro de Campos - Fernando Pessoa)

Graciliano Ramos tinha acabado de ser eleito prefeito de Palmeira dos Índios, em 1927, quando conheceu Heloísa Medeiros, 18 anos mais jovem que ele. Entre o encantamento do primeiro encontro – dado de forma muito casual – e o casamento, passaram-se dois meses incompletos. Nesse tempo, fascinado pela beleza da jovem que lhe oferecera uma rifa para a quermesse da igreja, o inexperiente chefe do executivo municipal escrevera sete cartas de amor a quem seria sua futura esposa. “Se estiveres firmes e me quiseres, então amarramos uma pedra ao pescoço, damos um mergulho – e vá o mundo abaixo, com todos os diabos!”, diria ele, na terceira epístola. E fora muito honesto consigo e com ela ao longo de todas as cartas: “Sou ingrato e injusto, grosseiro e insensível à dor alheia, um acervo de ruindades”, descrever-se-ia. Mas intensamente apaixonado: “Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a alma inteira, deixa-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te”. Na segunda carta, a intensidade de seu amor é exposta à prova: “És uma extraordinária quantidade de mulheres. Quando me vieste pedir não sei que para o Natal, eras uma. Depois, em um só dia, ficaste duas, muito diferentes da primeira. Desejei ver qualquer das três e levei à casa do padre um bacharel que vendia livros. Apareceu-me outra. Daí por diante o número cresceu,...”. Casaram-se e viveram um amor de devoção – Heloísa, agora Ramos – conduzindo o destino do que viria a ser um dos maiores escritores da literatura mundial de todos os tempos. Não sei por quê me lembrei disso quando minha filha me entregou um papel dobrado na hora em que fui buscá-la para a escola. “Escrevi para você, pai. Leia”, disse-me, os olhos brilhando por trás dos óculos de grau que a deixavam mais séria. Antes de seguir, desdobrei o papel e me pus a ler cada uma das palavras escritas com letras caprichadas. Não contive as lágrimas. Nem no carro nem no restaurante para onde fui depois de deixá-la na escola. “O senhor está bem?”, perguntou a garçonete quando me viu com o olhar molhado. Balancei a cabeça em sinal de afirmação. Ela se retirou, foi conversar com um colega mais além. Deve ter pensado que eu estava triste. Talvez imaginado que aquele papel trouxesse uma despedida, nunca uma aproximação. Eu gosto de imaginar cartas de amor – bem ou mal escritas: para o namorado ou para o amigo; para o pai ou para o filho; para qualquer pessoa a quem se ama. Imagino que as linhas que levam ao coração são tortuosas – como são tortuosos os mistérios que fazem você pensar no ser amado. Por isso, antes de sair do restaurante, fiz questão de ler novamente a carta que me fora destinada. E nunca me senti tão bem por chorar por amor:


“Pai,
Eu te amo! Você é o melhor pai que existe!
Você é legal, sonhador, divertido, brincalhão e inteligente!
Te amo aos nove anos.
De sua que te ama: Isa.
17/03/2010”.

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    # by Chico Fireman - 12:57 PM

    Coisa linda, hein? A mocinha parece que vai puxar ao pai.

    Abração,

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    # by Davi Soares - 1:07 PM

    No coments, meu amigo... Valeu à pena acessar teu blog...

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    # by Karla Patricia - 2:35 PM

    Lindo! Como te falei, é a demonstração do mais verdadeiro amor, aquele que é pra toda vida, seja em que dimensão esta vida se encontre.

    Que Deus abençoe sempre essa relação de pai e filha! bjos!

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    # by Alexandre - 2:53 PM

    Carlos, parabéns por este post. Fiquei com os olhos cheios de lágrimas, talvez por ter aqui minha tropinha que me brindam com essas cartas também.
    E essa abertura do Graciliano Ramos? Que bonito. Porque não fui eu que escreveu: "deixa-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te" ? Ô, inveja!

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    # by Elisana - 6:31 PM

    Isa parece que vai puxar papai, né?! Que Deus abençoe os dois! Beijo!

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    # by Acássia - 8:17 PM

    Owwwnnn. É uma dessas por ano é?
    (queixinho tremendo)

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    # by Diana Melo Ferraz - 5:02 PM

    Poxa parem de fazer o povo chorar ... lindo demais sem palavras só lágrimas de emoção.
    Beijo!

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    # by Cátia Pimentel - 12:00 PM

    Meu Amigo,
    são essas pessoinhas que nos fazem crescer e ver que vale a pena viver... A vossa pequena Isa Arrazou nossos corações (e o do pai babão claro), nas entre linhas ja é uma grande escritora como o PAI.
    Parabéns amigo por este post. Arrazou... Abrilhantando com Graciliano e Isa.

    Deus te Abençoe Bela Filha Isa.

    Beijinhos,

    Cátia Pimentel

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    # by Cátia Pimentel - 12:07 PM

    Meu amigo,
    que coisa mais linda do mundo... São essas pessoinhas que nos fazer ver a VIDA com outros olhos. Que post. Maravilhoso, Parabéns... Emocionou-nos e abrilhantou nossas vidas com Graciliano e Isa. Arrazou nossos corações.
    Isa já é uma pequena grande escritora. Deus te Abençoe Bela Isa...

    Beijinhos,
    Cátia

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    # by Débora Guedes - 2:13 PM

    Olá!

    Sempre fui uma apaixonada pela língua portuguesa.
    Ela seduz os olhos e quando as palavras certas são ditas, seduzem os ouvidos e por aí vai...
    Não quero falar de meu litígio eterno com a matemática. Visto que percebi que não dá para gostar ou saber de tudo! (Fato)
    Alguns dizem: "O português é lindo, quando bem escrito" Mas nunca vi nenhuma língua bonita, quando mal escrita. (Outro fato)
    Nesse meu amor tão grande por esta língua única, repleta de beleza, encontrei seus textos...
    E mais uma vez descobri que textos nos fazem apaixonar e eu me apaixonei.
    Parabéns pelo blog! Já sou seguidora.

    Débora Guedes.

    *Marcela Martine quem me apresentou suas belas palavras.

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    # by Gracinha Melo - 9:30 PM

    Também te amo, cara!
    Nossa Isa é um poema, né?
    beijo com saudade,

    Gracinha

    PS: Sou avó, desde o dia 10/03. E vc, tio-avô do Antônio...

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    # by Carlos Nealdo - 10:41 PM

    Amigos,

    Obrigado pelo carinho que vocês dispensam nesses posts sobre a Isa. Eu, como pai babão, fico orgulhoso e deveras agradecido. Um abraço carinhoso em todos.

    Nealdo.
    Pai da Isa.