G.R.E.S. Unidos da Sala Escura
(Olha a Unidos da Sala Escura aí, gente!)
Luz, câmera, ação!
Vem meu amor, vem balançar
Essa pipoca que acaba de estourar
Nosso lugar já se encontra reservado
Para a sessão especial daquele filme
Que concorre a vários prêmios
Não se esqueça de comprar refrigerante
E por favor, queira desligar o celular
Que a sessão já, já vai começar.
Olha lá o Almodóvar desfilando
Com o Antônio de Porta-‘Banderas’
Por enquanto só os trailers vão passando.
Mas logo, logo vai começar a brincadeira.
Nesse carnaval de filmes eu não erro.
Você será sempre minha “Dama de Ferro”
E eu, seu mestre-sala de cinema.
A maratona está apenas começando
Comprarei vários ingressos pra você.
Inclusive pr’A Invenção de Hugo Cabret. (Em três D )
Sou o seu príncipe montado no “Cavalo de Guerra”
Brincando de Star Wars em longínqua terra.
Sou “O Artista”, o “Último Dançarino de Mao”
E com você eu vejo até a “Filha do Mal”.
“Reis e Ratos”, “Viagem 2” , “Millennium”
A gente deixa lá para o final.
E quando o carnaval passar
Uma coisa terá valido a pena
Nosso lindo “Triângulo Amoroso”
Eu, você e o cinema.
"Os Cavaleiros de Outono”
– Sempre que estou triste, vejo o mundo através das recepções dos hotéis – ele disse para o homem sentando com o jornal aberto e os pensamentos fechados na leitura matutina. – Você já reparou que ninguém entra num hotel consternado? –, continuou, olhando, através das vidraças, a linha do horizonte que costurava o azul celeste e o verde do mar.
– Nem sai de um igualmente triste – respondeu o outro, o olhar preso na página policial.
– A felicidade mora na recepção dos hotéis, e examina o mundo com ares de turista, sentada numa poltrona, como estamos nós agora. A felicidade não sobe pros quartos, onde há espaço pro cansaço. Ela prefere observar as pessoas entrando e saindo com malas, como se trouxessem, em cada uma delas, mudas de roupas floridas, a falar da alegria de seus donos...
A Segunda Morte de Graciliano Ramos
José Sandro da Silva Amaral invadiu correndo a Rua José Pinto de Barros, no Centro de Palmeira dos Índios, sem saber que era um acervo de estatísticas. De vez em quando olhava para trás tentando conferir a pequena distância que o separava de seus perseguidores. O medo lhe enrugava o rosto, mal iluminado pela palidez da noite, deixando ainda mais sério o semblante de 25 anos. O suor – misto de nervosismo e esforço –, desfilava por seu corpo jovem, molhando hematomas tatuados pelo espancamento sofrido dois dias antes, numa guerra que mistura tráfico e instinto de sobrevivência – uma vida osso, pensou. Parou no número 90 da rua, ao perceber uma das janelas da casa aberta. No passado, era por ali que o dono da casa admirava o mundo. Um mundo feito de personagens como José Sandro: analfabeto, desempregado, pobre, marginal. Ele não conheceu o proprietário, mas achou que entrando ali poderia continuar vendo o mundo à sua maneira. Com sorte, sairia daquela vida, deixaria de dar o couro às varas, nunca mais seria preso por soldado amarelo nenhum. Pulou a janela como quem salta para a felicidade. Mal ultrapassou o portal – mágico para ele – foi atingido por dois tiros. Caiu no corredor da casa – hoje transformada em museu –, ao lado da mesa onde estão expostos relógio de pulso, caneta e barbeador do proprietário, com pequenas inscrições feitas à máquina escrever, onde se lê: “Objeto que pertenceu a Graciliano Ramos”. Os assassinos sumiram na noite mal iluminada. O corpo de José Sandro quedou-se inerte, o sangue lavando o piso onde um dia trafegaram as personagens de Caetés, conduzidas pelo proprietário da casa. Imediatamente, o museu ganhou as manchetes, não pelo que vale – uma lástima. “Homem é assassinado na Casa-Museu Graciliano Ramos”. As duas personagens – casa e assassinado – viviam, assim, seus dramas da publicidade equivocada. Abandonada pelo poder público, a casa sobrevive de esforços de poucos, quase nada diante de sua real grandeza. Em 1933, quando deixou Palmeira dos Índios para assumir o cargo de diretor de Instrução Pública de Alagoas, em Maceió, Graciliano Ramos fechou de próprio punho a residência. Guardou a chave no bolso do paletó, ajeitou a gravata com dificuldade por causa do cigarro entre os dedos, e não olhou para trás. Desde então, os alagoanos parecem repetir o mesmo gesto, passando uma chave imaginária na casa – museu! – de um dos maiores escritores mundiais, fazendo questão de não olhar para trás. Um estorvo. Por essas e outras, é que o escritor disse certa vez que Alagoas daria um belo golfo. Talvez isso já tenha acontecido e estejamos todos submersos. Não na água, como ele desejava. Mas na ignorância, que afoga todo e qualquer conhecimento.
Alegria, alegria
Tristeza é um estado de espírito em que os outros lhe governam.
Felicidade é um estado de espírito em que você governa os outros.
Vocês ainda não ouviram nada
“Esperem um minuto, esperem um minuto. Vocês ainda não ouviram nada! Esperem um minuto, estou falando”. A frase, dita pelo ator Al Jolson no filme O Cantor de jazz (1927), de Alan Crosland, representa um marco do cinema. Naquele ano, a indústria cinematográfica conheceria o elemento que mudaria para sempre a forma de fazer filmes: o som, e mais precisamente a voz, já que o som propriamente dito surgira um ano antes – em 1926 –, com Don Juan, estrelado por John Barrymore, o avô de Drew Barrymore. Claro que, como toda revolução, haveria resistência de muitos profissionais – atores e diretores – que não acreditavam na longevidade da fala na Sétima Arte. Chaplin, por exemplo, seria um dos que relutariam em fazer filme falado. Ainda hoje há quem sustente não imaginar Carlitos – o vagabundo mais famoso da história – falando. E ele permaneceu em silêncio. Mas o fato é que o cinema aprendeu a falar e tem deixado muita gente sem palavra desde então. Por essas e outras que a fala de Al Jolson continua tão atual e impactante. De fato, a gente ainda não ouviu nada. Se há dois anos seres criados em computador disputaram o Oscar de Melhor Filme com gente de carne e osso – e não seria surpresa nenhuma se Avatar tivesse tirado a estatueta de Guerra ao terror –, é sinal que a indústria ainda vai nos surpreender muito. A prova disso é O Artista (que estreia nesta sexta-feira, 10), um filme francês essencialmente mudo dirigido por Michel Hazanavicius e estrelado por Jean Dujardin e Bérénice Bejo. Numa época em que a tecnologia com seus efeitos 3D domina a indústria cinematográfica, um longa-metragem produzido com toda a técnica – e estética – dos filmes mudos é a sensação por onde passa. A obra conta a história de George Valentin – um ator de filmes mudos que vê sua carreira entrar em colapso com o aparecimento dos filmes falados – e de Peppy Miller, uma atriz que tem a carreira em ascensão justamente com as obras sonoras. Se em O Cantor de jazz Al Jolson protagonizou a célebre frase, em O Artista, Dujardin segue na direção contrária. A sua personagem representa a negação do som. “Eu não falarei! Não direi uma palavra!”, “diz” uma das personagens de George Valentin, logo no início do filme. A metáfora da fala/não-fala está presente em todo o filme, seja na descrença do protagonista (“Se isso é o futuro, pode ficar com ele!”, responde Valentin ao ser apresentado a um filme falado), seja na convicção dos empresários da indústria cinematográfica: “As pessoas querem caras novas, caras que falem”, diz um deles o ao ator em vias de fracasso. O fato é que a fala passa a ser, literalmente, o pesadelo de George Valentin. Aliás, a cena do pesadelo do ator no filme é simplesmente linda. Tecnicamente perfeita, como é perfeita toda a técnica empregada no longa. Cheio de metalinguagem, O Artista é, antes de tudo, uma belíssima homenagem ao cinema. Mas uma ressalva há de ser feita aqui: a linguagem do filme é essencialmente inspirada na estética muda, portanto é preciso ver o filme com olhares do final dos anos 1920 – quando o cinema era cheio de sonhos – a maioria simples, mas não menos belos. Ainda não vi os outros filmes candidatos ao Oscar deste ano, mas desde já, aposto minhas fichas no filme francês. Se, no ano passado, a academia privilegiou O Discurso do Rei, um filme que enaltecia justamente a fala, este ano, quem sabe não será a vez de O Artista, que privilegia o silêncio. Duvida? Ah, vocês ainda não ouviram nada.
Marcador
“Ela insistia em lhe aparecer na mente. Atrapalha-lhe a leitura enfiando-se entre as páginas abertas do livro feito marcador”.
O prazer da traça
Há pessoas que preferem o mar; outras, um caudaloso rio. Eu prefiro mergulhar em livros – melhor ainda se a leitura for feita na areia da praia ou na margem do São Francisco. Nesse sentido, o ano que passou foi de profundo aprendizado. Gostei da maioria das leituras que fiz. Poucos foram os livros ruins. Mas li-os também, porque às vezes é bom unir o fútil ao agradável. Agosto pra tudo. E janeiro e fevereiro e março também. Abriu um livro? Leia-o. Por ruim que seja. Ao final, você terá, no mínimo, ampliado o seu poder de crítica. Abaixo, relaciono as cinco obras de ficção que me chamaram atenção em 2011 (no próximo post falarei das cinco de não-ficção). Desde já, saliento: difícil escolher as melhores, mas vou arriscar – embora saiba que estarei cometendo injustiças (se alguém por acaso se atrever a ler este texto, peço por gentileza deixar a sua lista num comentário. Prometo publicá-lo aqui, para tentar ser menos injusto). A maioria dos títulos não foi lançada em 2011; algumas se tratam de uma releitura – aquela obra que você se depara ao arrumar a estante e fica com vontade de ler de novo. E por que esperar a vontade passar? Melhor é procurar um lugar legal para se deliciar com a leitura. Gosta de ler na cama? De(le)ite-se. Sofá? Esparrame-se. Confesso: fico balançado por uma rede. E a minha rede é social: cabe de tudo um pouco:
5º – Cai o pano – Comprei uma caixa com três livros de Agatha Christie por R$ 4,90. Custava quase R$ 100, o que, convenhamos, era vantagem no mínimo financeira. Durante minha adolescência, a escritora inglesa me acompanhou por longas madrugadas, quando devorava aventuras inteiras de Hercules Poirot. Em princípio, comprei por nostalgia dos tempos em que meu pai me mandava apagar a luz. “Já é tarde, você tem que acordar cedo amanhã”, tentava me convencer. Eu achava um crime: a justificativa dele e o mote de mais uma história do detetive com cabeça de ovo. Quando a encomenda chegou, abri a caixa como quem abre a memória. E fui logo em direção de Cai o pano, que é traduzido em português por... Clarice Lispector. Sim, a grande dama do Twitter, citada pela maioria das pessoas que sequer leu A hora da estrela. Reli a edição em dias, como fazia no passado. E cheguei à conclusão de que ler Agatha Christie pela mão de Clarice Lispector não tem preço. Ou até tem, mas custou muito pouco.
Trecho: “Existe alguma coisa pior do que descrever um anticlímax friamente? É como se o amor-próprio da pessoa estivesse em pedacinhos”. (Cai o pano. Agatha Christie. 3ª reimpressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009).
4º – O segredo dos seus olhos – Os diálogos literais do longa-metragem de Juan José Campanella, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, me fez querer conhecer o escritor argentino, que ajudou, inclusive, na elaboração do roteiro da obra estrelada por Ricardo Darín. Quem viu o filme sabe do que estou falando: diálogos cortantes, frases bem construídas e poesia ao longo de toda a película dão força a este que é um dos grandes filmes argentinos dos últimos tempos. O livro de Eduardo Sacheri é isso e muito mais. Um livro para se ler antes do filme. E depois e depois e depois.
Trecho: “Vamos por partes. Facilitemos as coisas. Começarei em primeira pessoa. Já tenho dificuldades suficientes para ainda ir procurar outras”. (O segredo dos seus olhos. Eduardo Sacheri. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011).
3º – María dos Prazeres – Comprei o livro na seção infanto-juvenil para dar de presente à Isadora, que tem se mostrado a cada dia uma leitora voraz. O livro de Gabriel García Márquez é belissimamente ilustrado por Carme Solé Vendrell e traduzido por Eric Nepomuceno – talvez o maior tradutor brasileiro da língua espanhola e certamente o maior tradutor do escritor colombiano no País. Um leitor atento vai perceber que a história da prostituta que dá nome ao livro faz parte de Doze contos peregrinos – daí minha curiosidade de ler antes (coisa de pai que, certo ou errado, tenta decidir o que é melhor pro filho). Resultado: talvez esse seja um raro – talvez o único – livro infanto-juvenil que a Isa só receberá quando estiver adulta.
Trecho: “Entrou no saguão mal iluminado pelo resplendor oblíquo da rua e começou a subir o primeiro trecho da escada com os joelhos trêmulos, sufocada por um pavor que só acreditava possível no momento de morrer. Quando parou na gente da porta do apartamento, tremendo de ansiedade para encontrar as chaves na bolsa, ouviu a batida sucessiva das duas portas do automóvel na rua. Noi, que havia se adiantado, tentou latir. 'Calado', ordenou ela com um sussurro de agonia. Quase em seguida sentiu os primeiros passos nos degraus soltos da escada e temeu que seu coração fosse arrebentar”. (María dos Prazeres. Gabriel García Márquez. Rio de Janeiro: Record, 2002).
2º – Pedro Páramo – Ao longo de toda a vida, Juan Rulfo lançou apenas dois livros. Um deles, a história da promessa do filho à mãe moribunda, que lhe pede que saia em busca do pai, Pedro Páramo, um malvado e lendário assassino. A obra, lançada originalmente em 1955, é a mais aclamada da literatura mexicana. Dela, Gabriel García Marques falou: “A leitura profunda da obra de Juan Rulfo me deu, enfim, o caminho que buscava para continuar meus livros”. E precisa falar mais alguma coisa?
Trecho: “Senti o retrato de minha mãe guardado no bolso da camisa, esquentando meu coração, como se ela também suasse. Era um retrato velho, carcomido nas beiradas, mas foi o único que conheci”. (Pedro Páramo. Juan Rulfo. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011).
1º – Angústia – Eu havia relido o livro do Graciliano Ramos durante as pesquisas para meu próximo livro, há dois anos. Chamou-me a atenção as frases do escritor alagoano, secas, curtas e tão definitivas. Mas reler Angústia em edição comemorativa de 75 anos não tem preço. Ainda mais porque o livro lançado pela Record, com abertura da neta do escritor Elisabeth Ramos, traz uma fortuna crítica que vale cada centavo gasto (tá, eu confesso: comprei meu exemplar num sebo virtual, por menos de um terço do – alto – preço). Além disso, este ano a obra ganhou significado especial porque conheci o cineasta Sylvio Bach, que levará às telas o único romance não filmado do Velho Graça. Com ele estive em Palmeira dos Índios, há alguns meses, tentando seguir os passos do escritor.
Trecho: “As noites eram medonhas. Os galos marcavam o tempo, importunavam mais que os relógios. E os ratos não descansavam. Enquanto alguns roíam a madeira do guarda-comidas, outros deviam estar lá dentro no armário, devastando os manuscritos, morrendo na literatura”. (Angústia. Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011).
Os pastores da noite
“Acordei muito mais pobre do que ontem”, pensei, esfregando os olhos e afastando da mente os pedaços de presentes que havia ganhado no sonho. O ruim de sonhar ganhando algo é acordar. É como ser contemplado na loteria e perder o bilhete. Senti-me assim esta noite, ao sonhar que uma promoção da Coca-Cola ofereceria milhares de prêmios em várias cidades brasileiras, entre elas a minha. De repente, vi um caminhão cair do céu de paraquedas, recheado de presentes. Havia lido algo antes – não me pergunte onde nem como, porque sonho tem dessas coisas – informando que o veículo seria garantido àquele que encontrasse o copo de vidro com a marca do refrigerante. O que se sabia era que o utensílio tinha sido escondido em algum ponto da cidade. E danou-se a população a procurar. Eu me meti na aventura. E fui encontrando vários outros brindes pelo caminho: relógios coloridos, camisetas da moda, maquiagens – essas tinham destino certo – chapéus variados. De vez em quando, a televisão ligada invadia meu sonho na madrugada, entrecortando a alegria de cada achado com histórias de pastores da noite, a maldizer as mazelas de pobres diabos em busca de salvação. “Seu marido teve um caso com outra mulher e quase destrói sua família?”, quis saber o pastor, entre um achado e outro meu. “Ele trabalhava para ela, se envolveu, teve filhos, e me deixou na miséria, pastor”, contou a mulher. “Tenha fé, a Justiça Divina é maior que a justiça dos homens, minha senhora”, respondeu ele. Deixei a TV para lá e me concentrei na corrida do ouro. Minha mãe apareceu com um presente. Tentei lhe mostrar os achados. “Essas canecas são para você”, me entregou. “Mas eu achei umas bem legais. Além disso, você já me deu essas...”, tentei lhe dizer, lembrando dos presentes que havia ganhado noutro tempo, fora do sonho. “Mas fique, você vai precisar”. Fiquei. E nada do copo especial aparecer. À certa altura, tive sede. E corri até a minha casa. Abri a geladeira e eis que estava lá, majestoso, o copo – já cheio d’água, para aplacar minha sede de presentes. Apareci na rua como quem dá a volta olímpica com o troféu de campeão. Houve queima de fogos. O barulho me acordou. Com sede e mais pobre. Tentei me agarrar à nesga do sonho, mas outro pastor tangeu para longe a minha esperança. Desliguei a TV com raiva. O jeito foi me levantar e ir à geladeira, onde não encontrei nada, nem água. Voltei pra cama frustrado, examinando cada símbolo do meu sonho. E o que aprendi com ele? Que as coisas não caem do céu. Tudo se conquista com trabalho e dedicação; que o tempo passa, e você não vai encontrá-lo em relógios alheios, é preciso fazer algo antes e urgentemente; que tudo o que sua mãe lhe dá é de coração e recheado de amor, importe-se; que Deus é justo e o resto é arremedo; que a mulher que você ama fica bonita com ou sem maquiagem; e que a Coca-Cola não é essa coca-cola toda. Pensei nisso e fui tomar um café forte, numa caneca dada há tempos pela minha mãe. E percebi que não acordara tão pobre assim. Porque café tomado em caneca dada pela mãe tem cheiro de saudade...
Um conto americano
Ricardo Darín está para o cinema argentino como o arroz está para o feijão. (Eu ia falar como o Messi está para o Barcelona, mas fiquei com pena do Neymar. Sei lá, de repente aquela aula que ele recebeu em Tóquio...). Reparando bem, na década passada parecia que todo filme do País vizinho que chegava às telas brasileiras estampava o nome do ator. Foi assim com Nove rainhas, O filho da noiva, O Clube da lua, Abutres, O Segredo dos seus olhos – só para ficar nesses – e o mais recente Um conto chinês, em que ele vive um comerciante antipático, com uma vida burocrática e ordinária, até um chinês cruzar o seu caminho. No longa-metragem de Sabastián Borensztein, o maior – e único – prazer de Roberto, o personagem de Darín, é colecionar notícias absurdas de jornais que lhe chegam trazidos por encomenda. A prática tem uma razão de ser, e mais não digo para não denunciar a trama do filme (corra à locadora, o longa acaba de sair em DVD). Por que me lembrei de tudo isso? Porque alguns dias depois de ter visto Um conto chinês, li uma notícia semelhante às recortadas pelo protagonista do filme argentino: durante a condução de um coração para transplante, no estado americano da Flórida, o helicóptero que transportava o órgão cai, matando as três pessoas que seguiam na aeronave e inutilizando o coração. E um coração inútil não serve nem para apanhar, que dirá para bater. Com exceção de informações sobre a causa não revelada do acidente, o local da queda (entre as cidades de Jacksonville e Gainesville), a notícia não falava mais nada. E claro que fiquei pensando especialmente em duas pessoas, depois de ler a história extraordinária: na dona do coração transportado – a minha mente tornou feminil o doador – e no receptor que aguardava o órgão num leito da clínica Luis Bonilla. E na minha cabeça, contínua ilha de edição, montou-se uma história: ela, funcionária pública; ele, garçom de boate, a servir bebidas e sorrisos para os clientes. Era todo coração no dia em que a viu pela primeira vez, a entrar na casa para comemorar a recente promoção no trabalho com as amigas. Coração fraco, o dele, a procurar amparo noutro peito. Quis sair pela boca, mas ele engoliu em seco. Então , serviu-lhe o órgão malfadado de bandeja, junto a uma dose de ousadia e outra de on the rocks. Ambos desacostumados: ela, a beber; ele, a doar o coração, músculo curtido em câmara fria. Quando repararam, estavam ambos embriagados. Ele nem precisou de bebida. Ofereceu ajuda para levá-la embora, já que as amigas se tinham ido há horas. Ela aceitou, sem saber por que. Saíram abraçados pela força do álcool, os corpos ziguezagueando como a desenhar frequência cardíaca pelas ruas. Passaram alguns dias sem se ver, até que ela, envergonhada, ligou para a boate para agradecer a gentileza. Ele a convidou para uma bebida. “Um café, para se correr menos riscos”, ela brincou. “Ou para se correr riscos conscientes”, ele rebateu, quase sem acreditar. Foram. Falaram sobre tudo. E ele lhe contou do problema no coração. Ela achou que fosse problema de amor. Ele riu. E antes de tocar nesse assunto, disse ser de saúde o que lhe deixava o órgão vulnerável. Era preciso um transplante. Ela se comoveu. Prometeu que faria tudo para achar-lhe um novo coração. E lhe emprestou o seu, nem tão novo assim. Ele cuidou muito bem dele, já que do seu não havia muito o que fazer. Um dia, ela chegou contando a novidade: haveria a possibilidade de um transplante em breve. Havia se informado na Luis Bonilla, eles confirmaram tudo. Só precisaria se internar para cuidar dos procedimentos. E assim ele o fez. Viajou até clínica e cuidou de obedecer à equipe médica. Ela iria depois. Sossegasse o coração. Mas um acidente de automóvel sucumbiu-lhe os planos. Morreria sem vê-lo de coração novo. Em casa, a família já sabia de seu desejo. Que seu coração batesse no peito do seu homem. Providenciaram o transporte. Um helicóptero foi disponibilizado para o transporte. Infelizmente, no meio do caminho, o mau tempo provocou uma pane na aeronave, que caiu matando os três ocupantes e inutilizando o órgão. Ele soube da notícia no mesmo dia. Os médicos falaram em adiamento do transplante. Seu já pobre coração não resistiria. Estava também inutilizado para aquela vida. Com sorte a encontraria noutro lugar e fechariam o ciclo. Porque amar é muito mais que união de corpos. Seus corações haveriam de bater em outras portas...
A cama de lastro de couro
“Outra vez sinha Vitória pôs-se a sonhar com a cama de lastro de couro. Mas o sonho se ligava à recordação do papagaio, e foi-lhe preciso um grande esforço para isolar o objeto do seu desejo.”
(Vidas secas)
Estudiosos de Graciliano Ramos tremam! Sinha Vitória, a companheira inseparável de Fabiano em Vidas secas, tinha um passado sombrio com o seu Tomás da bolandeira. Não sou eu quem fala. É o próprio filho – Ricardo Ramos – em seu excelente Graciliano retrato fragmentado, lançado no fim do ano passado, pela editora Globo. “Confesso: se não tivesse ouvido do próprio Graciliano, dificilmente chegaria a tal aproximação”, ressalta ele, não antes sem assegurar: “Creio que todos nós, perturbados pela literatura, muitas vezes nos interrogamos sobre as intenções do autor. Não me refiro às centrais, mas ou menos óbvias, mas às secundárias e, particularmente, àquelas que ficam na sombra e pouco se revelam. Esse lado um tanto obscuro, que na obra de Graciliano é território vasto e a respeito do qual ele falava muito”. A tal cama de lastro de couro seria o símbolo desse passado comprometedor de sinha Vitória. A cama aqui como objeto de desejo – em todos os sentidos: material e sexual. Ainda segundo o filho, o autor de Vidas secas já tinha dado mostras do quanto é chegado a uma simbologia libidinosa. Exímio estudioso da Bíblia, o ateu Graciliano Ramos era fascinado pelo livro sagrado, com seus símbolos, contos e novelas, poemas, provérbios e parábolas. Puro interesse literário. “O seu exemplar do livro, uma edição da Garnier (1864), está cheio de anotações. Em letra miúda, à margem, ele opina, glosa, divaga. Com toda a irreverência de que era capaz”, conta o filho. E por que eu me lembrei disso agora? Pois bem, um episódio narrado por Ricardo ajuda a entender a simbologia da cama. Certa feita, conta Ricardo, Graciliano discutia com os frades jesuítas a história de Ló (aquela em que anjos são enviados para Sodoma para tirar Ló e sua família de lá, pois a cidade seria destruída por Deus). A ordem do anjo era clara: quando saíssem, não poderiam olhar para a cidade, que seria sucumbida por chuva de fogo e enxofre. Mas eis que, enquanto fugiam, a mulher de Ló olhou para trás e foi transformada em estátua de sal. “Ela tinha culpa no cartório, não podia sair com o marido e as filhas”, asseverou Graciliano Ramos. “O símbolo é claro, isso de olhar para trás”, acrescentaria. Como Fabiano, sinha Vitória e os meninos, Ló e a família eram retirantes – cada uma das famílias querendo se livrar de uma praga. O “olhar pra trás”, no caso de sinha Vitória, seria a sonhada cama de lastro de couro de seu Tomás da bolandeira. “Seu Tomás tinha uma cama de verdade, feita pelo carpinteiro, um estrado de sucupira alisado a enxó, com as juntas abertas a formão, tudo embutido direito, e um couro cru em cima, bem esticado e bem pregado. Ali podia um cristão estirar os ossos”, pensa ela. Como conhecia tão bem um objeto que, como se sabe, é algo tão pessoal e íntimo? E dana-se a fazer comparação com a cama em que dorme com o marido. “Os roncos de Fabiano eram insuportáveis. Não havia homem que roncasse tanto. Era bom levantar-se e procurar uma vara para substituir aquele pau amaldiçoado que não deixava uma pessoa virar-se”. Nem precisa falar aqui que vara e pau são símbolos fálicos, não? Levando-se pela ótica defendida por Ricardo Ramos (ouvida do próprio pai, lembrem-se), os símbolos fálicos no ambiente de Fabiano incomodavam a mulher. Por isso “era melhor esquecer o nó e pensar numa cama igual à de seu Tomás da bolandeira”. O fato é que a polêmica levantada pelo autor deve incomodar aos mais castos defensores do Velho Graça. Mas para eles, um consolo: Fabiano sabia dos pensamentos da mulher.
Para saber mais: Graciliano retrato fragmentado, de Ricardo Ramos. Editora Globo, Rio de Janeiro, 2011. R$ 39, em média.
Os sapatos de Orfeu
Eu costumava andar
Bem mais de mil léguas
Pra poder buscar
Flores de maio azuis
E os seus cabelos enfeitar...”
Bem mais de mil léguas
Pra poder buscar
Flores de maio azuis
E os seus cabelos enfeitar...”
Uma dia minha filha percebeu que eu precisava de roupas novas, e decidiu que iria me ajudar nas compras. Na verdade, na época, eu estava precisando de roupas – fossem novas ou não. “Eu compro, você paga”, sentenciou. E fomos ao shopping onde, entusiasmada, ela saiu escolhendo camisas e calças – combinando cada uma delas e me mostrando o resultado. Gostei. Ao final, decidiu que eu estava precisando de um All Star. “Eu não preciso de tênis, Isa”, tentei lhe dizer. “Não é um tênis, pai. É um All Star”, calou-me, com seus oito anos de antes. Confesso que nunca me passou pela cabeça usar um All Star – nem quando mais jovens, nem agora. Mas levei o calçado, tratando de “esquecê-lo” na caixa por um longo tempo. Até que, ano passado, fomos ao cinema, e eu decidi usar o tênis pela primeira vez. Ela encontrou colegas de escola antes da sessão. Foi uma festa. Depois dos cumprimentos, apontou para os meus pés entusiasmada, como quem vê estrelas. “Gente! Olha para isso. Ele tem 40 anos! E vejam: All Star!”. As meninas gostaram. Ela sorriu, consciente de ter sido a responsável pela compra. Certa vez, contrariada comigo, brigou: “Você é muito velho para usar um All Star”. Mas já era tarde para deixar de usá-lo. O troco veio algumas semanas depois, na Feira Literária de Marechal Deodoro. Numa das palestras, o poeta Lêdo Ivo – prestes a completar 88 anos – exibia um All Star de um branco casto. Não vacilei. Chamei-a e, apontando para os pés do poeta, ordenei: “Vá lá, minha filha, chamar o Lêdo Ivo de velho”. Ela sorriu, lembrando-se do que havia me dito. “Eu te amo, meu velhinho de 40 anos”, disse, apertando minhas bochechas. Na véspera de Ano Novo, eu não sabia bem que roupa usar. Diferente da vez em que minha filha percebeu que eu precisava de camisas e calças novas, eu tinha um acervo razoável de roupas - talvez daí a dúvida. Só uma coisa eu tinha certeza: entraria em 2012 com os pés de sonhador, calçado no velho All Star que a Isa havia escolhido. Porque com eles meus pés têm mais um motivo para caminhar sempre na direção da minha filha - seja saltando o obstáculo que for.
Prosa de Cinéfilo
Sabe os pequenos prazeres da vida? Aqueles em que um grande amigo que você não via há algum tempo lhe telefona, por exemplo? Sabe quando esses pequenos prazeres vão ficando grandes? Quando o amigo que você não via há algum tempo lhe telefona para lhe dar uma notícia boa? Pois é, aconteceu. Elinaldo Barros, amigo e mestre, me ligou ontem para dizer que, folheando a revista Língua Portuguesa deste mês, encontrou uma matéria sobre livros que falam de cinema. E lá pelas tantas, se deparou com O Pianista do Silencioso. A edição especial – intitulada Cinema & Linguagem – ainda pode ser encontrada nas bancas de todo o País. Traz como tema principal “A Palavra na Imagem – como a relação entre a linguagem verbal e a cinematográfica afeta a maneira de narrar uma história”. A seguir, trechos da matéria Prosa de Cinéfilo, assinada por Braulio Tavares:
“A sala de projeção, o facho de luz na tela, a vida e os sonhos de diretores, atores e roteiristas: poucas coisas são tão inspiradoras quanto o cinema e as aventuras de quem vive dele. Conheça alguns livros que celebraram esse universo mágico”.
“Há muitos filmes sobre escritores e poetas, principalmente os de caráter biográfico, contando a vida de literatos famosos. Mais raros, talvez, são as obras que fazem o caminho inverso: livros descrevendo a vida, o trabalho e as aventuras de quem vive diretamente ligado ao universo do cinema: diretores, atores, roteiristas, espectadores, projecionistas...”.
“Ninguém sabe celebrar e ritualizar tanto a sua fantasia quanto os cinéfilos, e a literatura tem servido para a consolidação desse mito. Uma literatura que, talvez inevitavelmente, acaba sendo filmada e levada para a tela que lhe serviu de inspiração inicial”.
“O cinema industrial dos grandes estúdios de Hollywood foi recriado por inúmeros escritores, e impiedosamente criticado, em livros como O Dia do Gafanhoto (1939) de Nathanael West, O Último Magnata (1941) de F. Scott Fitzgerald, O Jogador (1988) de Michael Tolkin, O que Faz Sammy Correr (1941) e Os Desencantados (1950) de Budd Schulberg, Hollywood (1989) de Charles Bukowski, Sonhos de Bunker Hill (1982) de John Fante”.
“Em O Pianista do Silencioso (2006), Carlos Nealdo dos Santos leva o ator Al Jolson ao interior de Pernambuco, e faz o contraponto entre o cinema mudo norte-americano e a vida brasileira entre os anos 1917-1934”.
O melhor ofício do mundo
“Pois o jornalismo é uma paixão insaciável, que só se consegue digerir e humanizar pela sua confrontação descarnada com a realidade. Ninguém que não a tenha padecido consegue imaginar essa servidão que se alimenta das imprevisões da vida. Ninguém que não tenha vivido isso consegue nem de longe conceber o que é o palpitar sobrenatural da notícia, o orgasmo da nota exclusiva, a demolição moral do fracasso. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a morrer por isso poderia persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fosse para sempre, e não concede um instante de paz enquanto não torne a começar com mais ardor que nunca no minuto seguinte”.
(Gabriel García Márquez, em “Eu não vim fazer um discurso”)
Teoria da inspiração – ou de como o branco invadiu as ruas
Acontece assim: de repente, não mais que de repente, o executivo de uma grande montadora para de ouvir o Vinícius no iPhone e olha demoradamente, através da janela de sua sala, para o pátio da indústria, onde milhares de carros – a maioria branca – descansam feito ovelhinhas indefesas no pasto. “Preciso encontrar uma maneira de desovar isso”, pensa, desviando-se dos versos do poeta como quem se desvia de veículos na lentidão do trânsito. O ano já corria para o fim e as vendas despencavam como folhas outonais. Só que no verão. “Era preciso fazer algo urgente”, quis pensar, mas foi atrapalhado por um “você tem razão de correr assim” que saía do iPhone. E ele correu. Ligou para a secretária e pediu para reunir os diretores. Rápido. E enquanto esperava, ficou olhando as ovelhinhas de duas e quarto portas no pátio. “Pede perdão pela duração dessa temporada...”, parecia escarniçar o poeta, bonachão. Os outros executivos o encontraram cantarolando a letra da música. “Mas não diga nada que me viu chorando”, ele falou, enquanto enxugava a lágrima que lhe riscava o rosto. A turma entendeu o recado, menos o estagiário, que chegou atrasado, e corou. “Precisamos queimar esse estoque urgentemente”, disse, abrindo a reunião. “Fizemos carros brancos demais este ano”, continuou. Alguém justificou: eram os modelos preferidos de empresas, taxistas, hospitais, escolas etc. Mas o mercado andava acuado feito criança que tem medo de escuro. “É preciso, pois, clarear o mercado”, ele buzinou. Mas ninguém sabia como. “E se puder me manda uma notícia boa...”, gritou o Vinicius, do iPhone. Quem mandou foi o estagiário: “Planta nos jornais que o branco está na moda”. Ninguém entendeu. “Fala que a elegância do branco vai ser a nova tendência do mercado, coisa assim, sei lá”. Todos emudeceram; o estagiário empalideceu como os carros que quaravam lá fora. O executivo aplaudiu. Não o estagiário – que executivo não aplaude estagiário – mas a desempenho do poeta no iPhone. Mas comprou a ideia do rapaz, pagando com um "muito obrigado". E deu ordens para que pusessem a sugestão do moleque em prática. “Antes que um aventureiro lance mão...”, recomendou Vinícius melodiosamente. Antes de terminar a reunião, ordenou que todos os diretores fossem pra casa de carro branco. O modelo mais caro, que era para impressionar os consumidores e os jornalistas. E naquela noite, foi dormir contando carneirinhos. Que saíam, um por um, do curral da montadora.
As esganadas
“...O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica...”
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica...”
Álvaro de Campos
Em seu livro “A arte da ficção”, o inglês David Lodge (“Um almoço nunca é de graça” – sim, a frase dá título a um de seus livros, apesar de ter neguinho por aí usando sem citar a fonte) defende que “o humor é um assunto muito subjetivo”, portanto, cada um ri do que lhe apraz. Sendo assim, até obras que não nasceram com viés cômico podem sim, nos fazer rir. Machado de Assis, por exemplo, é detentor de um humor ferino e, não raro, nos faz rir à inglesa em várias passagens de seus livros (a dedicatória irônica de “Memórias póstumas de Brás Cubas” é ou não é humor?). “A comédia ficcional”, continua Lodge, “parece ter duas fontes principais, ainda que haja uma ligação estreita entre as duas: a situação (que pressupõe sempre um personagem – uma situação cômica para um certo personagem pode não o ser para um outro) e o estilo. Nesse sentido, Jô Soares sabe o que faz nas duas searas. Prova disso é “As esganadas”, seu novo romance publicado pela Cia. das Letras. Nele, o autor de “O Xangô de Baker Street” lança mão dos mesmos artifícios de seus romances anteriores – ao misturar ficção com fatos reais – para contar a história de um assassino de gordas – que a gente já sabe de quem se trata logo nas primeiras páginas. Para investigar os crimes – que acontecem num Rio de Janeiro no fim dos anos 1930 – ele ‘exporta’ o detetive português Tobias Esteves, uma personagem literalmente saída de um poema de Fernando Pessoa – no caso, “Tabacaria”, do heterônimo Álvaro de Campos. “A amizade de Fernando Pessoa por Tobias vem das tardes infindáveis gastas nos cafés do Rossio discutindo sobre nada ou coisa nenhuma”, narra o autor. Pura lorota. Deliciosa bazófia, é fato. Na verdade, Tobias Esteves é uma mentira muito bem contada – um detetive para quem o “ser ou não ser” do Hamlet é coisa de maricas. Para investigar os crimes – cuja ligação entre eles é o fato de as vítimas serem detentoras do pecado da gula – o lusitano prefere seguir sua intuição e seu raciocínio muitas vezes nem tão lógico: “Ouve lá. Nenhum ser humano é inocente. Tu és um ser humano. Logo, não és inocente; portanto, és culpado”. Sem trocadilhos, “As esganadas” é um livro delicioso. “Só posso dizer que a trama deixará você, ao mesmo tempo, horrorizado e com fome”, adverte Luís Fernando Veríssimo, na apresentação da obra. Ou, como diz David Lodge, “só um leitor com o coração de pedra não abriria um sorriso”. (“A arte da ficção”, aliás, é uma obra capital. O livro reúne artigos publicados por Lodge no The Independent on Sunday, no início dos anos 1990. Trás capítulos como o “Fluxo de consciência”, “Apresentação do personagem”, “Realismo mágico” e “O romance epistolar” – um gênero em que o autor desenvolve a história através de cartas – daí o nome – mas que depois de obras como “As ligações perigosas”, de Choderlos de Laclos, e com o advento do telefone e da internet, anda um tanto fora de moda. Mas isso é assunto para outra história).
Poesia incompleta
Quando as íris dos teus olhos
Se voltarem para os meus
Deitando luz nesse escuro
Iluminando o que é breu
Há de ter vento cantando
Feito o nordeste açoitando
A costa que o mar lambeu.
Haikais de Porto
(Michelangelo Merisi da Caravaggio)
Rima sem estética:
Vaidade de alguns poetas
Excede a (fita) métrica.
O gosto dos outros
Os dez mandamentos do escritor de ficção
Nancy Kress
1. Escreva regularmente. Se você não tem muito tempo, escreva pelo menos cinco minutos por dia. 2. Escreva o tipo de ficção que você gosta de ler. 3. Não espere a inspiração para começar. 4. Escrever é reescrever. Sempre. 5. Ouça todas as críticas com uma mente muito aberta. 6. Leia tudo o que puder. E mais também. 7. Não siga tendências da moda. Conte as histórias que você quer e como quiser. 8. Dedique atenção especial ao primeiro parágrafo. O que toca primeiro, toca duas vezes. 9.Transforme-se em seus personagens, enquanto escreve. 10. Não desanime diante de uma rejeição. A 90% dos escritores de maior sucesso foi dito pelo menos uma vez que se dedicassem a outra coisa.
Os sete conselhos*
*Gabriel García Márquez
1. Uma coisa é uma história longa e outra coisa é uma história alongada. 2.O final de um artigo deve ser escrito quando você estiver indo pela metade. 3. O autor lembra mais facilmente como um artigo termina do que como ele começa. 4.É mais fácil agarrar um coelho que um leitor. 5. É necessário começar com a intenção de que se escreverá a melhor coisa jamais escrita, porque logo essa vontade diminui. 6. Quando alguém se aborrece escrevendo, o leitor se aborrece lendo. 7. Não force o leitor a ler uma frase novamente.
Uma notícia de véspera
MACEIÓ, DOMINGO, 6 DE NOVEMBRO DE 1927
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As eleições de amanhã
Realizam-se amanhã em todo o Estado as eleições para a composição dos governos dos municípios .
Acreditamos que não descemos a uma afirmação destituída de verdade sustentando que , pela primeira vez , entre nós , no regime republicano, essas eleições estão despertando estímulo e interesse.
Nesses o pleito vai ser movimentado , com a fiscalização equânime do governo do Estado , que não recusou as garantias mais sólidas aos que se vão bater em campo raso .
Porfiam essas correntes em definir os seus propósitos e em demonstrar que os novos processos políticos que conseguimos introduzir merecem o seu respeito e precisam ser realmente consolidados.
As eleições de amanhã , portanto , estão despertando um interesse a que em verdade já nos desafizéramos.
Concorre para isto , em grande parte , a seleção dos elementos que vão ser sufragados, garantido todos eles um período fecundo para a vida dos municípios .
A começar pela capital , todas as chapas apresentadas pelo Partido Democrata consultaram de perto os interesses coletivos , auscultando quanto puderam as inclinações e imperativos da opinião .
Houve duas ou três exceções mas , se bem as examinarmos, veremos que elas nasceram apenas nas questões egoísticas de personalidades . O exame delas evidencia que todas as chapas homologadas pelo Partido foram organizadas com o intuito de atender-se às conveniências de facção .
Nossos ídolos ainda são os mesmos?
No próximo mês, a minha filha fará onze anos. Aos poucos, o ar de criança vai dando lugar aos traços de mocinha, gerando os conflitos naturais da transição. Onze anos. Ainda há pouco, lembrava-me dos seus ídolos, me dando conta de como eles foram pontuando cada fase de sua vida. Primeiro, a Branca de Neve, a quem ela – ainda mal concatenando palavras – chamava de Diné. Fase boa, aquela. Época em que eu me vestia de Príncipe Encantado e ia à sua escola, contar história para seus coleguinhas de turma. E ela, toda envaidecida, fingia ser a personagem principal do conto de fadas, com direito a comer a “maçã envenenada” e ganhar um beijo do príncipe – naquela época inocente, eu. Alguns anos mais tarde, os desenhos animados dariam lugar a ídolos de carne e osso, como o grupo mexicano RBD, de quem ela cantava as músicas, num espanhol infantil e por sê-lo, mágico:
Y soy rebelde
Cuando no sigo a los demás
Y soy rebelde
Cuando te quiero hasta rabiar
Era uma rebeldia inexistente aquela em que ela imitava a Anahí, Dulce Maria, Christian Chávez, Alfonso Herrera, Maite Perroni e Christopher – sim, eu “fui obrigado” a decorar o nome dos Rebeldes. E os mantive sempre na memória até que ela os trocou – já na nova fase – pela Isa TKM. Coisa de menina, não precisei me preocupar muito com nomes, personagens, músicas etc. Mas comecei a perceber que os heróis de minha filha estavam crescendo, acompanhando-a na sua passagem inexorável do tempo. E fui percebendo as sutilezas de seus pequenos conflitos entre ser criança e já parecer mocinha. Outro dia, por exemplo, ela se esqueceu de levar seu perfume para minha casa. “Não se preocupe, meu amor, tem um seu guardado aqui”, tentei remediar. “Ah, pai, não gosto mais dele. Tem cheiro de bebê”, disse. “Vou usar o seu, para ficar com seu cheiro, que eu amo”, emendou. E eu me lembrei da época em que eu me vestia de príncipe – fase que já foi esquecida por ela, como também foi a Isa TKM. Agora, seu ídolo é o Justin Bieber, como o é para milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo. Recentemente, vi reportagens sobre a turnê do astro adolescente no Brasil e vi milhares de Isa chorando com a possibilidade de assistir ao show do cantor. No dia que anunciaram a venda de ingressos para a apresentação do cantor canadense, acompanhei, via MSN do trabalho, sua saga de tentar reservar as entradas. Por várias horas, ela ficou apertando o F5 do teclado, na esperança de ver surgir na tela o sinal positivo para a compra. Não deu certo. Já passavam das duas da manhã quando ela foi dormir, frustrada. E ficou mais ainda quando soube que não poderia ir ao show, por falta de grana. Mas, compreensiva que é, encontrou outra forma de acompanhar o seu astro – seja lendo as notícias sobre os shows no Brasil, seja encontrando vídeos na internet sobre ele. Falou tanto sobre os shows do cantor que outro dia acabei sonhando que a levava para ver a apresentação. Sem muito dinheiro – algo recorrente que me acompanha até nos sonhos – sonhei que tinha comprado entradas em local não muito favorável – eram as mais baratas. Mesmo assim, ela não reclamou, afinal, era o Justin Bieber! Percebi, no entanto, que a Pista Prêmio estava vazia. E tive a ideia de tentar entrar com ela naquele local. Fomos até a entrada, eu segurando minha filha pela mão. Mas fomos barrados pelo segurança, que exigiu os bilhetes de acesso. “Eu vou entrar, porque o sonho é meu. Quando você puder sonhar, você me barra, ok?”, eu quis dizer isso, mas não consegui articular a fala, no sonho. Não sei como, mas o fato é que entramos e fomos direto para frente do palco. Ela, empolgadíssima; eu, feliz por ela. Quando o Justin Bieber começou a cantar, os olhinhos de holofotes dela não se desviaram do cantor adolescente um só segundo. A certa altura, o cantor desceu do palco e eu – sem saber o motivo – deixei a Isa para trás e fui o seguindo, até que ele parou diante de mim, me cumprimentou com um aperto de mão e perguntou: “Cadê a Isa?”. Eu não acreditei que o Justin Bieber – que tinha levado mais de 60 mil adolescentes àquele estádio – sem contar os milhares de pais que ficaram à porta ansiosos para que o show terminasse – estava perguntando pela minha filha. E em bom português – coisa de sonho, vá lá. Ainda segurando sua mão, saí rasgando a multidão até onde estava a minha filha, como quem levava um herói para salvar o mundo. Fui encontrá-la ao pé do palco, sentada com algumas amigas. Alegre como quem tinha ganhado na loteria, eu lhe mostrei o cantor: “Isa, olha quem está aqui!”, disse, eufórico. Ela olhou para mim, estendeu a mão como quem me mandasse parar e disse: “Espera, pai, que eu tô brincando”.
Suindá
Suindá se levantou e saiu massageando a harmônica noite adentro.
– Ah, bêbado! – rosnou o soldado amarelo à porta da delegacia, batendo o lenho na palma da mão, como a mostrar uma autoridade inexistente.
O policial amarelo não sabia o que era vagar de carecente, a dedilhar a alma num instrumento inútil, libertando melodia plangente no meio da noite. ‘O senhor não entende o que é canção...’, tentou dizer ao homem fardado, mas desistiu diante da cara de mau do praça. Preferiu seguir o caminho escuro. À distância, olhou para trás e enxergou o velho vulto de farda, a perder-se na distância da prisão. Viu o prédio gasto – quantos dias deixara a alma presa ali? –, o policial à porta, a bater na palma da mão com o pedaço de madeira, cambaio. Examinou o guarda tomar seu posto à entrada depois de tirar o pó imaginário da farda e ajeitar-se em sentido – a prestar continência ao vazio. Foi desaparecendo na escuridão, guiado pelo instrumento; toda cidade dormia embalada pela canção que passeava entre seus dedos, levada pelo vendo aos ouvidos dormentes...
Corujinha, que vida é a tua?
Bebendo cachaça,
Caindo na rua,
Dormindo no chão,
Isto é bom, corujinha,
Isto é bom...?
Bebendo cachaça,
Caindo na rua,
Dormindo no chão,
Isto é bom, corujinha,
Isto é bom...?
O gosto dos outros*
“Aos meus trinta e oito anos, e com quatro livros publicados desde meus vinte, me sentei diante da máquina e escrevi: ‘Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo’. Não tinha a menor ideia do significado ou da origem dessa frase, nem para onde iria me conduzir. O que hoje sei é que não deixei de escrever um único dia durante dezoito meses, até que terminei o livro”.
“Pode parecer mentira, mas um dos problemas mais angustiantes era o papel para a máquina de escrever. Eu tinha o mau costume de acreditar que os erros de datilografia, de linguagem ou de gramática eram na realidade erros de criação, e cada vez que os detectava rasgava a folha e jogava no lixo, para começar de novo. Com o ritmo que tinha adquirido num ano de prática, calculei que levaria uns seis meses de manhãs diárias até terminar o livro”.
“Esperanza Araiza, a inesquecível Pera, era a datilógrafa de poetas e cineastas e tinha passado a limpo grandes obras de escritores mexicanos. Entre elas, A região mais transparente, de Carlos Fuentes, e Pedro Páramo, de Juan Rulfo, além de vários roteiros originais de dom Luis Buñuel. Quando propus a ela que passasse a limpo a versão final, o romance era um rascunho crivado de remendos, primeiro em tinta preta e depois em tinta vermelha para evitar confusões. Mas isso não era nada para uma mulher acostumada a tudo numa jaula de leões. Anos depois, Pera me confessou que quando levava para casa a última versão corrigida por mim, escorregou ao descer do ônibus em um aguaceiro de dilúvio e as páginas ficaram flutuando numa poça da rua. Com a ajuda de outros passageiros, ela as recolheu empapadas e quase ilegíveis, e secou-as em casa, folha por folha, com um ferro de passar roupa”.
*Gabriel García Márquez, sobre como iniciou a escrita de Cem anos de solidão; in: Eu não vim fazer um discurso – Rio de Janeiro: Record, 2011.
Carta aberta ao governador de Alagoas
Senhor governador do Estado de Alagoas,
Não conheci seu pai - o que considero uma pena, a julgar pelo que li sobre ele, em especial o livro “Teotônio, o Guerreiro da Paz”, do jornalista Alves Marcio Moreira – e embora ainda adolescente, me emocionei com a poesia do Milton que viraria um dos hinos da campanha pelas Diretas no País. Ainda hoje, passados tantos anos, me pego cantando a canção – seja pela beleza dos versos, seja pelo que eles representaram na história do País:
“Quem é esse saltimbanco
Falandoem rebelião
Como quem fala de amores
Para a moça do portão?”
Falando
Como
Para a moça do portão?”
Filhos de pessoas ilustres costumam dizer que não há nada mais pesado do que o sobrenome do pai. Confesso que não sei se teria estrutura de carregar um apelido famoso, porque isso requereria de mim muito mais esforços. Preservar o sobrenome de alguém importante é uma tarefa árdua e não menos penosa. Por isso lamento pelo senhor, governador. Imagino que não deve ser nada fácil suportar um Teotônio Vilela sublinhado – imagine a carga! – por um sonoro Filho. Costumo dizer que sobrenome se constrói; já sobrenome construído, é preciso trabalhar dobrado sob pena de manchá-lo. O senhor não parece ser uma má pessoa. Já tive a oportunidade de conversar algumas vezes com vossa excelência – todas elas no exercício da minha profissão. Quem analisa a conjuntura política do Estado, no entanto, tem outra impressão. E esta, infelizmente, é a que está ficando. Dá desgosto ver Alagoas ocupar manchete negativa na imprensa nacional – quase sempre relacionada à violência, saúde e educação. Eu tenho orgulho de ser alagoano – mesmo com meus colegas de profissão de outros Estados vindo me cumprimentar, nos encontros de trabalho pelo Brasil a fora, sempre com a velha frase: “Ah, você é do Estado daquele político lá, né?”. Não. Eu sou de um Estado que tem muita gente boa, em todas as áreas de atuação. Quer ver? Música? Hermeto Paschoal, Djavan, Jararaca (da dupla Jararaca & Ratinho)... Cinema? Cacá Diegues, Jofre Soares... Literatura? Lêdo Ivo, Graciliano Ramos, Jorge de Lima... Mas sei que tem algo errado com o lugar onde moro, sim. Não vou fechar os olhos, como o senhor parece ter feito (governador, o senhor é filho do Menestrel, lembra!?). Antes mesmo que o senhor queira saber quem eu sou, eu respondo: sou uma estatística, governador. Uma estatística do seu governo. Entrei para essa – gostaria de dizer seleta, mas infelizmente não cabe o termo aqui – categoria hoje. Estou sendo obrigado a me mudar de onde moro pela violência desenfreada que toma conta do Estado. Obrigado a deixar o lugar onde fiz amizades, vínculos e – mais do que tudo isso – construí um lar. Tudo isso porque homens armados invadiram, nesta manhã de terça-feira, o pequeno condomínio onde divido espaço com alguns moradores, arrombaram as casas e ameaçaram pessoas – inclusive crianças. Tudo em plena luz do dia, sem a interveniência do Estado. Eles sabem que nenhum mal será lhes feito. A polícia não age – e não é por culpa dos profissionais existentes no Estado. Antes, é pela falta deles. Não temos médico, professores e policiais suficientes. E o que temos, trabalham em situação adversa. Falta tudo do lado dos mocinhos – de colete a ambulância. E os bandidos sabem fazer conta – mesmo sem escola, que, infelizmente, estão caindo aos pedaços. Estou deixando um lugar de gente simples, mas tão humana que já me dói a despedida. E não é por culpa dos bandidos. É por culpa da omissão do Estado, senhor governador. Mas antes de me mudar, gostaria de dizer que torço para que tudo isso seja revertido em tempo hábil. Torço por vossa excelência. Francamente, gostaria que, no futuro, o senhor fosse lembrado como Teotônio Vilela Filho. E não apenas como filho do Teotônio Vilela – pai.

















