O meu endereço

Poeta é poeta e vice-verso. Não dá para questionar a genialidade de um Vinicius de Moraes, por exemplo. Mas juro que toda vez que ouço “A Casa” fico com uma pulga atrás da soleira. Porque me lembro da minha casa. Que tem paredes, teto, porta e chão. Só não tem móveis. Aliás, somente um poeta para achar engraçada uma casa que não tem nada. Minha filha acha. Mas ela, assim como o Vinicius, tem qualidades especiais. “Sua casa é tão cheia de vazios”, observou ela na primeira vez que me visitou, não se dando conta de que basta a presença dela para a minha casa ficar completa. De luz, de vida, de esperança e de saudade. Na última visita – entre o Natal e o Ano Novo –, observou a lousa em formato de porta-chaves na cozinha e não resistiu. “Que lindo, pai! Onde você comprou?”. E depois de saber que fora eu que fizera improvisando uma tábua de carne, não agüentou: “Me empresta o giz?”. E escreveu: “amor de filha, mais amor de pai, é igual a ‘pai, eu te amo. Happy Ano Novo’”. Senti-me o bobo – de felicidade – morando na casa de número zero do Poetinha. “Era uma casa muito engraçada / não tinha teto não tinha nada / ninguém podia entrar nela não / porque na casa não tinha chão...”. E quem precisa de chão quando se flutua?

Haicais de Porto


Crime de patente:
O soldadinho deu cabo
Do velho tenente.

Assombração

O espírito do Natal acaba de me dar um susto!

Perigo

A devastação ambiental no Brasil é tão grande que, se vacilar, até a Vanessa da Mata perde o sobrenome.

Bolsa de valores - ou a arte de guardar lugares

Eu aguardava na fila de embarque no aeroporto internacional de Garulhos quando a senhora cheia de malas tocou no meu ombro. “Você está indo pra onde?”, perguntou, abrindo um sorriso quando soube que meu destino era Maceió. “Pode me ajudar a despachar essas malas no seu nome, para evitar o excesso de bagagem?”. Hesitei em princípio, mas não vi nenhum problema em atender ao seu pedido, principalmente porque as malas não iriam às minhas costas. Diante do sim, ela agradeceu e desandou a tagarelar. “Compras, sabe? Todas da 25 de Março, onde os preços são tentadores”. Interrompi-a com uma pergunta, curioso para saber se tudo aquilo – cinco ou seis grandes malas – era para consumo próprio. “Que nada! Para revender na minha loja”. E se despediu, não sem antes me fazer o convite. “Apareça por lá qualquer dia desses...”. Nunca apareci, mas outro dia, ao passar pelo endereço da tal loja, lembrei da mulher e ri. O lugar, localizado na Ponta Verde – o metro quadrado mais caro de Alagoas – é freqüentado por madames da alta sociedade, que acham que estão levando para casa autênticos Prada, Louis Vuitton ou Hugo Boss quando estão, de fato, gastando os tubos em cópias autênticas. Mas tudo bem, “Hugo Boss tá na moda”. Por que me lembrei dessa história agora? Porque neste fim de semana fui assistir à apresentação da minha filha no teatro. E percebi que a nova modalidade em cinemas e casas de espetáculos de Maceió é mandar a bolsa na frente, por alguém menos displicente que consegue se arrumar a tempo e guardar o lugar na poltrona. Na apresentação de domingo, havia mais bolsa vendo o espetáculo do que pessoas. Madames impolutas exibiam suas Louis Vuitton compradas na 25 de Março por uma módica quantia, num acinte a quem, por querer estar no lugar certo, na hora certa, planejou seu tempo de modo a não chegar atrasado. E ai de quem tentasse tirar a bolsa da cadeira, tentando ver o espetáculo confortavelmente. Vi um senhor quase ser humilhado porque perguntou se a Herchovitch ao lado poderia assistir à apresentação no colo, como convém. “A dona dela vem já”, respondeu a mulher, com a raiva a tiracolo. O senhor se contentou em ver o balé sentado no corredor, como dezenas de outras pessoas, enquanto dezenas de bolsas jaziam confortavelmente nos lugares que deveriam ter gente. Só faltavam aplaudir a cada cena. Com exceção da apresentação da minha filha – que me emocionou muito – fiquei pensando o tempo todo que, enquanto o brasileiro chegar atrasado aos lugares – e consequentemente os produtores de espetáculos privilegiarem esse público em detrimento de quem cumpre seus horários – o Brasil não vai pra frente. Pode até ir, mas tende a chegar atrasado.

Remoto controle

Minha TV é tão velha que não consegue mais memorizar os canais.

Carrossel

Quem não assume as rédeas da própria vida é burro.

Ser ou não ser

“Compenso, logo existo”, filosofou o cheque.

Sábio

Perguntaram a Sócrates, o filósofo, o que era aquela meia dúzia de aves no lago. Ele pensou, pensou e respondeu: “Só sei que nadam seis”.

Alerta vermelho

Eu olho para os bichos estampados nas cédulas de Real e me dou conta de que dinheiro é uma espécie em extinção para mim.

Pecado

A banda do diabo não fez sucesso porque só gravava CD demo.

Agente

O bom de confraternização no FBI é que todo mundo é um amigo secreto.

Guerrilha

A violência está tão grande que até Florbela Espanca.

Proposta

Ofereceu-me casa, comida e roupa largada.

Tábuas de maré

O macaco-prego foi se encontrar com o tubarão-martelo no mar ceneiro.

Famoso quem?

Num dos primeiros anos desta década, quando ainda era editor de Cultura da Tribuna de Alagoas, fui a Salvador para cobrir um evento musical. Não me lembro mais do que se tratava – as idas à capital baiana eram freqüentes naquela época – mas creio que era lançamento de disco de uma dessas bandas de axé music. A organização da festa disponibilizou para mim um apartamento num dos hotéis mais luxuosos da Bahia, localizado na praia de Itapuã. Cheguei à recepção e fui providenciar o meu check in. “Sobrenome e nome, por favor”, quis saber o recepcionista. “Santos, Carlos”, respondi. Ele conferiu os dados no computador, pediu para preencher uma ficha, entregou-me as chaves e me desejou boa estada na cidade. “A nossa rede se sente orgulhosa pelo fato de o senhor ter escolhido o nosso hotel”, despediu-se o homem. Admirei a sua educação e segui para o quarto, onde achei uma cesta – posta caprichosamente sobre a cama – com uma garrafa de Moët & Chandon, flores, chocolates suíços e um cartão: “Seja bem vindo”. “Porra! A organização do evento caprichou”, pensei. Depois de desfazer a mala, tomei um banho, li algo e desci para o restaurante. À entrada, um pai-de-santo contratado pelo hotel para jogar búzios para os hóspedes chamou a minha atenção com suas vestes impecavelmente brancas. Ao me aproximar, ele estendeu-me a mão. “Que bom lhe ver, Carlos Santos!”, disse. “Puta que pariu! Vai ser adivinho assim na casa de...”, pensei espantado, não chegando a terminar a frase. Refeito do susto, pensei se tratar de um plano tramado por ele para impressionar os hóspedes. “Ah, deve ter pegado meu nome na recepção para fingir ser bom no que faz etc. e tal”, maquinei na mente. “Como está seu pai?”, quis saber ele. Coincidência ou não, na época meu pai se recuperava de um AVC que quase o levava à morte. “Vai bem, obrigado”, respondi aéreo. “Gosto muito do seu pai”, sentenciou. “Você é o filho que mais se parece com ele”, continuou. Naquele momento, eu já não sabia se estava sendo alvo de sua consulta, mas o fato é que ele tinha acertado tudo até ali. “Nunca mais fui ao Pará, mas gostava de visitar seus pais...”. Espera! Pará? Eu nunca estive no Pará. “O senhor tem certeza que está falando com a pessoa certa?”, perguntei. “Claro, meu filho. Carlos Santos, não é?”, questionou com convicção. “Sim, sou eu”. “Pois então! Eu lhe vi pequeno, correndo pelos corredores de sua casa, lá no Norte”. Havia algo errado naquilo tudo. “Seu pai continua cantando?”, voltou a perguntar, emendando uma pergunta atrás da outra, até que veio a última frase: “Gosto muito dos carimbós dele...”. Alto lá, pensei, atônico. Ca-rim-bó!? E lembrei imediatamente de um cantor que meu pai gostava, em tempos idos, chamado... Carlos Santos! “Hoje eu quero dançar (carimbó)/ Vou dançar com você (carimbó) / Quero entrar nessa roda...”, cantarolei mentalmente uma música que meu pai gostava. Corri em direção à recepção, aonde cheguei nervoso. “Moço, quem foi que deixou a cesta de presentes na minha cama?”, perguntei. “Senhor, é uma gentileza do nosso hotel para quem contribui diretamente com a cultura do nosso país”, respondeu. “Como assim? Só por que sou jornalista?”. O homem riu. “Não, senhor. Você sabe quem o senhor é”. Tive vontade de soltar um palavrão. Minto. Soltei um palavrão. E subi para o quarto. Pus o Moët & Chandon pra gelar, abri as cortinas, contemplei a vista e desci como o “filho” do Carlos Santos, cantarolando um carimbó. “Vem girar no salão/ Girando, girando no meu coração...”. Ao final de três dias, ainda “famoso”, fui me despedir do pai-de-santo. “Dê lembrança ao povo de Belém do Pará”, recomendou. E depois de trocar algumas palavras com ele, dei-lhe um abraço e as costas, rumo ao anonimato...

Contramão


Abram alas! Abram alas!
Acintosamente,
Minha tristeza se inventou
De desfilar em carro aberto
Pela Rua da Alegria.

Auto(móvel)-ajuda

Cansado de trabalhar de graxa, mecânico acaba de lançar o Manual Prático de Como Comprar Caixa de Marcha Automática no Câmbio Negro.

Lei da Física

Dois geniosos não cabem na mesma lâmpada.

Haicais de Porto

A verdade torta:

Chave-mestra não ensina

Como se abre porta.

O pior cego

Não vi a escada e caí. Acho que estou precisando de óculos degraus.

Heim?

Que Mauá em não ser barão?

Culpa

Vendia verduras e legumes com agrotóxicos. Mas ninguém denunciava porque todos tinham o nabo preso.

Vou de táxi

Ia-me embora pra Pasárgada, mas desisti porque o seu Manuel me cobrou Bandeira 2.

Construção

Edifício fazer prédio.

Elementar...

Ocupado é o mordomo.

Tempo

– Padre, o senhor tem relógio?
– Tenho, meu filho.
– Que oração?

Às claras

Passei a noite inSony, vendo televisão.

Vai dar merda

Deu-se assim: presos da delegacia regional de Arapiraca arquitetavam um plano de fuga em massa quando foram descobertos por policiais de plantão, que perceberam uma das grades que dá acesso ao primeiro andar do prédio praticamente serrada. Frustrados em seu sonho de liberdade, os quase oitenta detentos começaram uma rebelião e atacaram um dos colegas de cela, que apanhou mais do que o Botafogo no campeonato brasileiro. Como não conseguiram ser livres, resolveram libertar toda a fúria nas costas do infeliz, que só não morreu porque os agentes chamaram reforço policial, que conseguiu estancar a sova. Levado para a unidade de emergência, o preso contou à imprensa que só apanhou por um vacilo. E narrou os fatos: quando os policiais descobriram a provável fuga, os cativos trataram de esconder a serra, com a intenção de usá-la para futuros planos. Vítima de prisão de ventre há dias, o que havia de apanhar resolveu ir à privada, aliviar-se e libertar seu intestino. Fez as necessidades e deu descarga. Um dos colegas de cela deve ter visto a cena.
– Que merda você fez!? – questionou.
– Eu fiz, mas dei descarga...
– Seu puto! A serra estava no vaso!
Por um momento, o preso chegou a mirar buraco abaixo, vendo a liberdade em forma de serra descendo pela descarga. E naquele momento – diante das pancadas que começaram a surgir de tudo que era lugar – só o que pode fazer foi soltar o grito. E os demais colegas, que já estavam na merda, na merda permaneceram.

Pé-Quebrado

A rima é
O arrimo

Do Poeta.