O Cemitério das Almas Reinventadas


Prezados,

Tenho andado afastado desse espaço, pelo que peço desculpas. Mas eis que, de uns tempos para cá, uns fantasmas deram para invadir o meu cérebro, percorrendo feito loucos os lugares mais estranhos da memória, rebuscando acontecimentos, remexendo em lembranças velhas e vasculhando uns territórios que andavam adormecidos. Para aplacar a fúria com que vieram, tenho passado os dias revisitando a infância, relendo cartas, redescobrindo angústia, tentando, em noites de insônia, juntar as pistas que me vão deixando pelo caminho umas figuras caetés. Ao longo desse período de ausência, venho percorrendo lugares estranhos – muitos deles freqüentados por tipos insólitos, bêbados, marginais errantes, heróis às avessas, putas. Invadi, a mando de um tal Ramos de Oliveira – o líder dos fantasmas absolutos – algumas velhas prisões, tentando soltar condenados, trazê-los de volta à vida. Também encontrei, perdido em beira de estradas, antigos heróis do sertão, quase mortos na memória nordestina. Dei-lhes guarida, ouvi seus depoimentos – horas e horas de conversa em noites de lua cheia, em pleno mato, ouvindo ao longe uma melodia entoada por um estranho sob a copa de um umbuzeiro. Por estes dias, visitei cidade antiga, onde porcos, cães e gente se misturavam num balé rude à guisa de convivência (em alguns momentos, difícil saber quem era porco, quem era gente). Entre arruados simples, um morador de uma choça me convidou para entrar. Acabei ficando hóspede, ouvindo suas histórias, enquanto ele consertava hastes, letras tortas, engrenagens de velhas máquinas. Em tempos de fastio, folheei velhos Lunários, buscando o conhecimento guardado em antigas fórmulas. Em dias ditos sagrados, o consertador me contava a vida, os amores abandonados, outros a conquistar. Alheio à nossa prosa, o filho de 9 anos brincava em meio aos cães que infestavam o terreiro. De vez em quando, vinha interromper a conversa o tal Ramos de Oliveira, querendo saber do tempo que o outro gastaria para consertar a máquina guardada, no que ele chamava, de Cemitério de Almas Reinventadas. Examinei atentamente aquele fantasma velho. Devia ter conhecimento do que dizia. Era seguro, falava pouco, um homem sério, fumante compulsivo, pouco dado a sorrisos. Fiquei a observá-lo quando se retirou da casa, em direção ao Quadro. E, por um momento insano, fiquei a imaginá-lo se divertindo com as meretrizes do Pernambuco Novo. Perdido em pensamentos, estou sem tempo de postar algo novo nesse espaço. Também o consertador não quer que eu vá embora. Diz que precisa me contar ainda algumas histórias: horrores da Peste Negra, aventura dos Brilhantes, escritos de catedral, relatórios de prefeito, amores correspondidos, tudo. Se me demorar na volta, vocês já sabem o motivo. E mesmo que me retarde, tentarei mandar bilhete por um desses portadores que andam em animais a caminho da cidade. Não sei se chegará bem – talvez chegue em linhas tortas –, mas hei de encontrar um jeito de voltar a este canto...
Do passado, minhas lembranças.

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    # by Cris - 12:18 PM

    Aguardo sua volta. E meu passaporte para um passeio por suas lembranças.
    Boa viagem!
    Calaça.

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    # by tartaruga amarela - 3:37 PM

    Fio do cranco de bom!!!
    Bobônica da peste!!! Bixiguento!
    5 de julho tá muito longe, viu? Vou aguentar esperar tanto não!! Rum!!!