Sonhos são nossos desejos saindo para passear

Um dos filmes mais bonitos que vi se chama Sonhos, do diretor japonês Akira Kurosawa. São várias histórias baseadas em sonhos que o cineasta teve ao longo de sua vida. Uma dessas histórias – e a que mais me encantou – mostra um estudante de artes passeando, durante uma visita a um museu, pelas paisagens de Van Gogh, com direito de encontrar o pintor em plena atividade. Eu fiquei impressionado com o colorido das telas. Imediatamente, lembrei de uma reportagem – escrita há mais de 20 anos – sobre uma pesquisa que “provava” que o ser humano sonha em preto e branco. Nunca acreditei nisso. Meus sonhos são tão multicoridos: o verde é esperançoso; o preto, ausente; e o sangue, rubro como deve ser. Meus sonhos são plenos, nunca são incompletos – interrompidos pela metade e disperdiçados em noites mal dormidas. Pelo contrário: são tão acabados que até os pesadelos terminam na “cena final”, comigo fazendo as vezes de mocindo e me dando muito mal. A maior parte do tempo, no entanto, eu sonho acordado. Mas confesso que não sonho com um mundo melhor, em que para ser bom, precisa ser idealizado. Meu mundo é real. Meu mundo é que nem pobre que sai de casa pela manhã e não sabe se volta com comida no final do dia, mas vai fazendo esse percurso assoviando uma melodia do Chico Buarque, imaginando-se o próprio autor de Construção. Meu mundo também tem fantasia: de carnaval, sexual etc e tal. Mas até este mundo de que falo é real – minha moeda diária de vida –, em que muitas vezes sequer sobra troco para o vinho com os amigos em noites de saudades. Mas mesmo assim, quando o vinho é impossível, ainda me resta o sabor da embriaguez, aquela sensação de felicidade que para se ter, basta estar vivo...

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    # by kassianobre - 9:54 PM

    caralho!

    "Mas mesmo assim, quando o vinho é impossível, ainda me resta o sabor da embriaguez, aquela sensação de felicidade que para se ter, basta estar vivo...

    eu nao lembro dos meus sonhos..mas eu recordo que quando eu sonho comendo, eu nao sinto o gosto da comida.. =S besteira...

    bju

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    # by Patricia - 10:23 AM

    Já meus sonhos, Nealdo, nunca termino de sonhá-los dormindo. Eu sempre acordo nos momentos cruciais, mas não me incomodo com isso, porque - lúcida - eu posso escolher o final.

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    # by Patricia - 10:23 AM

    Já meus sonhos, Nealdo, nunca termino de sonhá-los dormindo. Eu sempre acordo nos momentos cruciais, mas não me incomodo com isso, porque - lúcida - eu posso escolher o final.

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    # by Marcos "Tchôla" Rodrigues - 10:59 AM

    Nealdo,

    esse filme é realmente uma viagem. Muito bem sacado. Durante um tempo ficava pensando até que ponto estava sonhando ou vendo aquilo na realidade.

    O dia passa muito rápido. Entre um e outro o sonho acaba costurando o que não fizemos, fizemos demais ou não deu para fazer. Ultimamente quando sonho...na hora "H" a porra do celular desperta. kkk

    Valeu véio!

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    # by Zara - 5:49 PM

    Nealdo, gostei muito do seu texto. Acho que hoje recebemos tanta informação externa que até os sonhos estão ficando mais confusos... mas gosto de sonhar, dar vida aos meus pensamentos - loucos ou não. E gosto também de sonhar acordada... por quenão? ;) Beijão

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    # by Anônimo - 4:29 PM

    Diz o ditado popular que sonho com água é sinal de morte, e nesses últimos dias eu sonhei pelo menos duas vezes nadando em uma piscina muito funda, me supreendendo com as piruetas que dava dentro d'água, que eu não sabia que podia fazer. Para aumentar o meu infortúnio, no último fim de semana saí de casa e deixei a janela aberta. Quando cheguei, já tarde da noite, tinha uma borboleta preta enorme em cima do meu travesseiro. Eu tentei enxotá-la mas ela ficava voando ao redor da minha cabeça e insistia em voltar pra minha cama. Isso também é presságio de morte. Não sou uma pessoa supersticioso, mas fiquei com um medo tremendo de morrer.

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    # by Luciana Wander - 12:20 AM

    Neil querido,
    "Sonhos" é realmente lindo...
    E construir sonhos, ao teu lado, é como um lapidar de pedras preciosas...
    Faz-me sentir especial saber que sou parte deles.
    Parabéns, o texto está belíssimo! Rico!
    Amor.
    Lu

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    # by Léo Villanova - 1:20 AM

    "Sonhos" é onirismo mesmo quando Kurosawa nem tinha a intenção.

    Há uns anos atrás eu estava fadado a ver somente o que recordava o que podia imaginar. Prestes a perder a visão por conta de uma cirurgia mal sucedida, fui pra o tudo ou nada numa outra clínica longe de Maceió. Na fila do check-in do aeroporto olhando pro vazio, provavelmente com uma angústia estampada na cara, surge diante dos meus olhos uma figura com aparência profética, com pele morena queimada e cabelos e barba branca. Bateu no meu ombro e falou, meio imperativo: "Assista 'Sonhos', de Akira Kurosawa". Do jeito que apareceu, ele sumiu no meio da pequena multidão. Na mesa de cirurgia, no exato momento daquele 'tudo-ou-nada', a minha única preocupação era se eu ia conseguir sair dali com chance de ver o filme.

    Já que estou aqui lendo e escrevendo pra esse blog, é de imaginar que eu pude ver o filme do Kurosawa. Revi o profeta um dia andando na rua. Não consegui alcançá-lo. O mistério é saber se ele teria outros filmes pra me recomendar de igual qualidade.

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    # by Acássia - 6:26 PM

    Quando sheakspeare disse que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa filosofia, talvez ele tenha descoberto os mistérios dos nossos sonhos...

    Belo texto, Nealdo.