Ratatouille


A caminho da casa dela, repassei na mente todos os ingredientes para o jantar especial que haveria de preparar: vinho; massa caprichosamente escolhida para ela; temperos que certamente lhe agradariam; azeite virgem; um filme para depois; e muito capricho, fundamental para o sucesso de qualquer prato. Antes de entrar no carro, ela me beijou, sorriu e eternizou o encontro num abraço caloroso. Até chegar à minha casa, conversamos sobre tudo. Ela, mais do que eu. Não porque não tivesse assunto, mas porque ouvi-la me faz bem. E eu calo. Ao chegar, ela quis me ajudar na cozinha, mas dissuadi-la. “Leia algo, enquanto preparo o jantar”, sugeri. Ela concordou. Pimentão, cebola, bacon, presunto. Manjericão para decorar o prato. E o molho. “Adoro molho branco”, disse, quando me viu preparar o bechamel. Massa ao dente. “Não tem penne?”, perguntou, surpresa. “Ih, que bola fora”, pensei. Mas fui honesto: “não tem penne”. “Eu prefiro Miojo”, emendou. “Essa é das minhas”, ri por dentro. E peguei o Lamen. E o vinho? Vinho é como futebol. Você não compraria um jogador do Burkina Faso tendo um perna-de-pau brasileiro disponível. Por mais perna-de-pau que seja, o jogador tupiniquim levaria vantagem em relação ao “craque” burquinense. Somos o País do Futebol, entende? O que quero dizer é que você não compraria um vinho cuja uva não se adaptasse ao solo de determinado país. É simples: basta saber que uva se dá bem no Brasil, por exemplo. A chance de escolher algo ruim é pequena. Fuja dessas excentricidades pedantes de dizer que o tanino é isso; o sabor, frutado; o aroma, amadeirado etc. A uva Tannat, por exemplo, dá no Uruguai que nem chuchu dá em cerca. Não porque dá em cerca, mas por saber que os uruguaios conhecem a qualidade da fruta foi o que me fez optar pelo vinho daquele país. Mas ela não bebe! E agora? “Eu vou tomar suco de uva, tá?”, ressaltou, com um sorriso tão encantador que quase me fez queimar os ingredientes. Mas continuei. “O cheiro está bom”, me encorajou. E apaguei o fogo. “Será que ela vai gostar?”, pensei, ao preparar, com um cuidado muito especial, o seu prato. Antes, enchi as taças: a minha, com vinho; a dela, com suco de uva. Suspense. Ela levou o primeiro bocado à boca. Silêncio. “Está uma delícia, pai. Você é o melhor pai do mundo”, disse-me com a boca ainda cheia. E naquela noite, fui dormir embriagado de sua delicadeza.

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    # by Janine - 2:35 AM

    É lindo esse seu relacionamento com a Isa Nealdo! Cultive sempre essa amizade por ela, antes de ser pai seja amigo, mas tenho quase certeza de que esse preceito vc segue faz é tempo! Menina de sorte =P

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    # by Lenilda Luna - 9:29 AM

    Com toda certeza, Nel, a Isa não exagera nem um pouco quando diz que voce é o melhor pai do mundo. E sua leitura desse momento reforça outra tese, não é a quantidade de tempo que passamos com a pessoa amada que importa, mas a qualidade criada nesse tempo. Isso voce sabe muito bem!!!

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    # by Diana Melo Ferraz - 3:10 PM

    Ai meu amigo vocês emocionam qualquer pessoa com a relação de pai, filha e acima de tudo AMIGOSSSS, eu que choro lendo receita de bolo (diz minha irmã) imagine quando leio seu blog...

    TE AMO!!!

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    # by Thiara - 4:50 PM

    Esse jantar deve ser sido um deleite...

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    # by Thiara - 4:51 PM

    Este comentário foi removido pelo autor.
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    # by Elisana - 6:39 PM

    Esse é o pai da Isa que conheço... O homem que tem o coração maior que ele... Beijo, Necs!

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    # by .Luciana Buarque. - 8:39 PM

    Demais de lindo... Deleite é ler suas linhas!