Conduzindo Drummond


– Trouxe as poesias?
– Trouxe.
– De Carlos Drummond?
– De Carlos Drummond.
– Me deixa ver?
– Estão no banco de trás.

Examinou os papéis com olhar crítico:

– Gostei de Quadrilha.
– É?
– Sim, sim.
– Por quê?
– Porque na minha turma tem o João e a Teresa. E ela vai ficar brava quando eu ler.

E foi recitando a caminho da escola:

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história”.

– Obrigado, pai!
– Pelo quê?
– Pelas poesias.
– Obrigado, filha.
– Pelo quê?
– Por ter recitado para mim.
– Ah, valeu!

E naquele momento, eu achei que todo veículo deveria vir com poesia como item de série.

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    # by Márcia - 8:00 AM

    Ops! fazia um tempinho que não "abria a porta" deste blog para leitura, hoje [bateu saudade das emoções] aqui estou. Deparei-me com a reprodução de um afetuoso diálogo, emocionantemente BELO. PARABÉNS!

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    # by Débora Guedes - 9:30 AM

    Concordo que todo veículo deveria vir com poesia como item de série. Porém, para pessoas especiais, veículos especiais. O seu, além da poesia, veio com uma poetISA junto para recitar docemente as palavras de Drumond.

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    # by Janine - 9:50 AM

    Isa parece ser a criança mais fofa do mundo! Poesia devia estar em todo lugar! =D

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    # by Marcos - 11:53 PM

    Somente a poesia tira o coração da inércia.